Os judeus, durante o domínio nazista na Europa, eram obrigados a usar um distintivo com uma estrela de Davi, amarela, em suas roupas. Suas casas e comércios eram pichadas com esse símbolo. Era uma humilhação pública e dizia-se que os judeus não eram cidadãos e que podiam ser usados pelos dominadores de ocasião.
Se isso era odioso, imagine alguém ter que gritar “impuro, impuro” (tamê, tamê, em hebraico) para evitar que alguém se aproxime dele. Assim deviam se comportar os leprosos (Lv 13, 44-45). Além disso, deviam viver em lugares marginais e andar com as vestes rasgadas e com os cabelos em desordem, demonstrando externamente a sua miséria física e social.
A lepra (tsara’at, em hebraico) era considerada um castigo advindo por causa da idolatria, da imoralidade, da profanação do nome divino; por causa de blasfêmia ao nome do Todo Poderoso, por roubar aquilo que era público, por causa do orgulho, malecidência, olho grande, juras em vão ou agir ultrapassando o próprio limite etc.
O Evangelho do 6º domingo do Tempo Comum (Mc 1, 40-45) nos fala que um leproso (metsora, em hebraico), cheio de coragem, descumpriu a lei, rompeu a barreira dos preconceitos, passou pela multidão e conseguiu prostrar-se diante de Jesus, e pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Ele percebera que Jesus era uma autoridade diferente (Mc 1, 22), como vimos no 4º domingo, dia 29/01.
Jesus teve compaixão daquele homem; não o rejeitou nem fugiu dele. Jesus sentiu-se solidário com aquele marginalizado. “Sentiu com-paixão”: sofreu com ele, colocou-se no lugar dele, na pele dele, pois estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fica curado”. E ao som dessas palavras, o homem teve a sua saúde física de volta e a sua dignidade restaurada. Jesus devolve a dignidade humana àqueles a quem cura, eis o que é mais interessante: dignidade humana vale mais do que saúde, do que dinheiro, do que qualquer outra coisa.
A lepra física virou hanseníase, deixou de excluir de modo desumano e pode ser curada com tratamento medicamentoso. Mas temos outros que não queremos ver ou tocar: os sujos, drogados, noias, miseráveis e excluídos economica e socialmente, que vivem em nossas calçadas e sob as marquises, como subprodutos de nossos programas políticos e pacotes econômicos.
Temos que fazer o retorno a Deus (teshuva), uma reconciliação entre o humano e o divino, arrepender-nos de nossas ações e curar a sociedade da lepra que nós mesmos causamos com nossa ganância de lucros, com a corrupção da vida privada e pública. Ah se os corruptos e corruptores tivessem que gritar “impuro, impuro”!
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